A difícil arte de ser pesquisador no Brasil


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Todo mundo sabe que para um país se desenvolver é necessário um investimento maciço em educação, ciência e tecnologia. Para se reerguer após a derrota na segunda guerra mundial, o Japão pegou a ajuda oferecida pelos países vitoriosos na guerra e investiu pesado em educação e tecnologia. Com mão de obra qualificada e indústrias de ponta, em poucos anos veio a recuperação. Outro exemplo de desenvolvimento sólido e consistente é o da Coréia do Sul, que há 40 anos atrás tinha um PIB per capita parecido com o do Brasil e hoje o PIB per capita da Coréia do Sul é mais do que o dobro do PIB per capita do Brasil, e para melhorar, com um índice de analfabetismo zero. Assim como o Japão, a Coréia do Sul investiu em educação, principalmente no ensino fundamental, e depois investiu no desenvolvimento de ciência e tecnologia.

Se um país quer ser desenvolvido, deve se tornar independente da tecnologia estrangeira, ou seja, deve ser capaz de desenvolver tecnologia de qualidade para competir no mercado mundial. Vender produtos agrícolas e comprar máquinas para cultivá-los, colhê-los e transportá-los, é na verdade servir de colônia, fornecendo a matéria prima a preços baixos e comprando todo o resto a um custo muito alto.

Infelizmente, o investimento em educação, ciência e tecnologia no Brasil é muito aquém do necessário para que possamos mudar o rumo do país assim como fizeram Coréia de Sul e Japão. Os pesquisadores brasileiros têm que fazer verdadeiros malabarismos com os poucos recursos que conseguem, sendo a maioria desses recursos provenientes do governo através de agências de fomento. Infelizmente, as empresas brasileiras não têm a cultura de investir em pesquisa, e as empresas estrangeiras fazem esse investimento obviamente nos seus países de origem.

Além dos recursos serem escassos, a burocracia e o excesso de controle levam as pesquisas ao fracasso. Parece que tudo colabora para dificultar ou impedir o sucesso na pesquisa brasileira. Muitas vezes os pesquisadores são obrigados a emitir relatórios parciais constantemente mostrando o progresso da pesquisa, o que torna o processo lento e estressante. Caso o resultado parcial mostrado não esteja do agrado da empresa que financiou a pesquisa, existe ainda a ameaça do corte da verba e extinção do projeto.

As verbas para os projetos normalmente vêm cheias de rubricas e regras rígidas para serem utilizadas. Em algumas agências de fomento qualquer alteração no projeto inicial tem que ser submetida para uma nova aprovação por parte da agência (mesmo nos casos em que a agência não fornece o valor total pedido para execução do projeto, o que claramente o inviabiliza). Estamos vivendo uma crise moral, em que os órgãos de controle partem do princípio que todos são corruptos e ladrões. Não há flexibilidade para o uso dos recursos e a burocracia engessa a pesquisa. Porque simplesmente a verba não é dada ao pesquisador e se exige os resultados ao final? Caso o pesquisador não apresente os resultados desejados ou justifique o porquê não os alcançou, na próxima vez que submeter um projeto ele não recebe mais recursos. Por outro lado, caso ele apresente resultados satisfatórios, recebe mais verba para dar continuidade a suas pesquisas. Assim todo pesquisador sério terá interesse em mostrar bons resultados para continuar tendo financiamento.

O nosso potencial é enorme e temos bons pesquisadores com reconhecimento internacional. O que falta é a educação, ciência e tecnologia começarem a ser geridas por profissionais de educação e pesquisadores, isto é, pessoas que entendem do assunto. Deixar que um monte de burocratas, advogados e órgãos de controle, que não entendem nada de educação, ciência e tecnologia, fiquem dando pitacos e dizendo como devemos fazer pesquisa ou ensinar é um desserviço ao nosso país e às futuras gerações.

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